Eu, Tu e os meus sapatos

Louca pela vida. Louca por ti. Louca por escrever. Louca por sapatos.

Do verbo procrastinar

Quem me conhece vai dizer que se há palavra que não combina comigo é esta: procrastinar… porque o que me dizem tantas e tantas vezes é que preciso de abrandar.

Mas estão enganados. Eu procrastino. E muito!

Uma semana e meia sem empregada foi o suficiente para me abrir a pestana e fazer baixar em mim uma fraquinha fada do lar. Não, não pensem que me vou queixar sobre não ter empregada porque há meio mundo sem empregada. Eu sei que há. Nada disso. Não me vou queixar. Ou melhor, sim, vou queixar-me. Mas sobre mim própria e a minha procrastinação.

Cá em casa somos todos mais ou menos arrumados. Aquelas regras básicas do dia-a-dia são cumpridas pelos 3 (o pobre Rodrigo ainda não entra na equação da desarrumação): as camas são feitas antes de sair de casa, não se deixa louça suja no lava-louça, não há brinquedos espalhados pelo chão da casa, a roupa é imediatamente colocada na tulha quando é despida (e ele tem o hábito maravilhoso de despir o fato e colocar logo no cabide), as almofadas da sala ajeitadas à noite e o quarto dela arrumado depois da brincadeira. A coisa vai-se mantendo com um ar decente. Entretanto entra a empregada na dança e dá a volta a tudo. E eu procrastino.

Antes de ir de férias perdi a conta ao número de máquinas de roupa que fiz (e, consequentemente, que estendi e apanhei). Liguei o ferro pela primeira vez em meses para passar a roupa do pintassilgo mais pequeno. Arrumei a louça da máquina e voltei a encher. E a arrumar. E a encher. E a arrumar. E a encher. (Já perceberam). Mudei a roupa das camas. Aspirei. Limpei vidros e sanitas. Dobrei roupa interior, biquínis e roupa desportiva.

E agora queixo-me de mim própria. É verdade. Não estou a trabalhar e estou em casa e por isso é natural que faça mais agora. Mas tive uma miúda de 5 anos comigo as férias todas e um bebé de meses. Que mama e que bolsa e que faz cocós até às costas. E todos os dias saio de casa. Para uma consulta. Para uma massagem. Para uma ida ao cabeleireiro. Para ir às compras. Para treinar. Para almoçar fora. Para passear. (Enfim, como podem compreender, é todo um dia-a-dia muito difícil e cansativo). E, relembro, tenho dois miúdos atrelados (agora só a meio tempo porque a Maria já regressou ao colégio – mas sou eu que a vou buscar e estou a 20 km de distância… Não é propriamente já ali.). Dançamos. Vemos filmes. Conversamos. Vamos comer gelados. E faço isto e ainda dei uma de fada do lar. Fraquinha, relembro.

Então por obra de quem é que no resto do ano não faço mais qualquer coisa cá em casa? Sim, é verdade, tenho empregada e se for para fazer eu, não tinha. Mas se calhar se fizesse qualquer coisa de vez em quando, ela podia fazer aquelas coisas mais chatas mais vezes. Limpar estores. Arrumar gavetas. Lavar paredes.

E era agora que entrava a promessa “Vanessa Joaquina, vais deixar de (preguiçar) procrastinar e começar a fazer qualquer coisa cá em casa.”… Mas depois olho para o monte de meias e boxers dele (é o monte evereste preto e azul escuro mais assustador do mundo) que acabei de apanhar, lembro-me do conselho da minha mãe quando tinha 10 anos “Sempre que o teu marido te disser para passear, vai passear e borrifa-te para a casa!” e passa-me logo a ideia de me transformar em fada do lar. Fraquinha.

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