Eu, Tu e os meus sapatos

Louca pela vida. Louca por ti. Louca por escrever. Louca por sapatos.

Saber que se foi feliz não dói

Os candeeiros de mesa estão ligados e as cortinas puxadas numa tentativa vã de iluminar um dia de tempestade.

Ele dorme ao meu lado no sofá depois de uma luta inglória contra o sono ao meu colo. Dou colo. Muito. Todo o que ele quiser e todo o que me apetecer. Aquele que a irmã nunca quis e que sei que mesmo que quisesse já teria deixado de querer. A sopa dele arrefece no balcão e o aroma maravilhoso da pastinaga invade a cozinha. Ao fundo escuto a máquina de loiça a trabalhar. A roupa acabou de ser estendida – varanda bendita. Pelo chão Legos espalhados. Esse terror que ataca os pés das mães durante a noite depois de um dia a definir a ofensiva. Aqui ao lado a caneca de Earl Grey com leite (e açúcar – perdoem-me os puristas) e o livro que se anda a passear há demasiadas semanas entre o sofá e a mesa de cabeceira.

Não são quase nove meses. São quase nove meses duas vezes. Ele colado a mim e eu colada a ele de forma quase ininterrupta. Questionam-me se vai custar? Não sou adivinha mas, contando que já não é a primeira vez, apostaria num não. Não me vai custar. Ele não podia ficar melhor entregue. Eu vou estar a mil sem tempo para pensar. E nestes dias vivo (e aproveito) esta melancolia que me invade… De dias perfeitos que estão a terminar, para dar a vez a outros dias igualmente perfeitos. Diferentes mas perfeitos. Gostamos de nos convencer que não, eu própria caio nesse cliché de que “eles só ficam a chorar enquanto a mãe está a ver”, mas acredito que um bebé (ou uma criança) que não conheceu outra realidade, vá sentir a mudança. Tem de sentir. Não interessa se vai ficar em casa dele com quem o ama de forma igualmente incondicional. Vai ser diferente. E ele é só um bebé. E ainda bem. Ainda bem que ele é só um bebé. E esta melancolia nostálgica que acolho nos meus braços e que saboreio como quem relembra com saudade dias bonitos, não é para ti bebé. É para mim e só para mim. E não custa. Nada.

É sinal de que se foi feliz. E saber que se foi feliz não dói.

 

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