Eu, Tu e os meus sapatos

Louca pela vida. Louca por ti. Louca por escrever. Louca por sapatos.

Então e os que morrem?

Sim. Então e os que morrem são o quê?

Este assunto não é meu. Ou é… porque me toca, porque não sou imparcial, porque faço dele estandarte. É meu. Mas também é de todos.

E hoje cansei-me. Passei os olhos por mais uma qualquer crónica sobre um miúdo. Um puto de 20 anos que morreu por causa do filho da mãe do cancro. Tudo muito bonito. A escrita, entenda-se. A emoção. A homenagem. A quase totalidade do discurso. Mas depois lá vem ela… “Desistiu de lutar”. Ou “cansou-se de lutar.” E fico desnorteada.

Só quem nunca passou por isto é que consegue ter a coragem de escrever tamanha barbaridade. Desistir? Cansar? Terão estas pessoas noção do que representam estas palavras? Para os que vivem esta realidade neste momento? E sim, que estão cansados, exaustos, arrasados como nenhum de nós saberá o que é estar se não passar por isso. Não. Este puto de 20 anos não desistiu de lutar. Morreu porque teve o azar de ser apanhado por uma cabra de uma doença que mata. Isto. Só isto.

E para os que ficam? Terão estas pessoas noção do que representam estas palavras? Quando a puta da doença leva a melhor. Porque não somos máquinas e, desenganem-se, os médicos não são – lamentavelmente – omnipotentes, apesar de tentarem e muito e de nós o desejarmos ainda mais. O que são estas palavras para os que ficam? Digam-me? Sabem o que são? Um puxar do tapete… depois de já lhes ter sido tirado o chão. Um esfregar na cara dissimulado. Uma ofensa subtil. Uma facada num coração que já mal bate.

“Ele ganhou e sobreviveu. É um herói.” Pois está claro que é. Mas não é um herói porque sobreviveu. É um herói porque passou por isto. Da mesma forma que passaram os que morreram. Ou serão os que morrem os jokers desta vida? Anti-heróis? Os maus da fita?

Heróis são todos. Todos. Os que vivem e os que morrem.

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